O tempo passa e o nosso bebê cresceu rápido demais.
Acredito que o sentimento de que os anos estão passando rápido demais é comum hoje em dia. Tudo é corrido, as semanas e os meses vão embora e mal percebemos. Com a chegada dos filhos e toda a rotina de surpresas, medos, alegrias, risadas e noites em claro, os primeiros meses parecem longos e assustadores.
Mas logo os saltos de desenvolvimento deixam de ser uma novidade completa e aprendemos a lidar com eles no dia a dia. Tudo vai se acalmando e, quando piscamos, já estamos organizando a festinha de um aninho. Contudo, o tempo volta a voar. Quando paramos para pensar, nossa bebê já cresceu e as primeiras “birras” começaram a dar sinal.
O Dia em que o “Sim” Virou “Não!”
Quando os primeiros episódios de choro intenso e resistência começaram a aparecer, nós não estávamos prontos. Talvez pensássemos que demoraria mais. Mas as coisas não mudam de acordo com a nossa vontade; aquele ser humaninho tem o seu próprio ritmo de desenvolvimento e o nosso papel é auxiliar para que ele cresça bem e saudável.
Existem marcos de tempo em que a criança vai conseguir realizar determinada ação, mas eles não são exatos. Às vezes, alguns comportamentos começam antes em uns e mais tarde em outros. Nós queremos ver o bebê evoluindo, conseguindo realizar cada vez mais coisas, entendendo melhor os comandos e respondendo aos nossos questionamentos. Tudo isso vai aparecendo com o tempo.
Mas o mar tranquilo e belo não costuma durar para sempre. De repente, as primeiras birras começam a dar as caras: cuspir para fora uma comida que até ontem ela adorava ou jogar um objeto no chão só porque nós descascamos a banana “errado”. Todo “não” dito por nós se torna um choro sentido, com muitas lágrimas escorrendo pelo rosto daquele anjinho em momentos de pura rebeldia.
Essa nova fase nos pega desprevenidos mais uma vez. O chamado “Terrible Twos” (os terríveis dois anos) pode chegar, de fato, bem antes do segundo aniversário — como foi o caso por aqui com a Maria. E isso nos assustou, por não entendermos como a nossa princesinha, às vezes, virava uma “bruxinha” e falava não para absolutamente tudo.
O que acontece no cérebro próximo dos 2 anos?
O cérebro da criança está em uma grande fase de transição. Conseguimos notar mudanças no comportamento como um todo: ela vai buscando mais independência, querendo participar e ajudar em tudo. Contudo, um simples “não” pode transformar o mar calmo em uma tempestade enorme.
Aqui vivemos um grande dilema. No começo, nós não sabíamos lidar com as reações da Maria por pensar que era somente pirraça e que precisávamos ser firmes para não reforçar aquele comportamento. Entretanto, ela também não sabia o que estava acontecendo. O cérebro do bebê nessa faixa etária ainda está em construção, mais especificamente o córtex pré-frontal, que é a região responsável pelo controle das emoções e dos impulsos.
Então, uma negação gera uma frustração gigante e um verdadeiro curto-circuito no cérebro da criança. Sem saber como lidar com essa avalanche de sentimentos, surgem as explosões que chamamos de birra. Nesse período, isso não é falta de educação ou má criação, e sim a crise dos 2 anos (ou a pré-crise) dando os seus primeiros sinais.
O Teste da Banana: Quando a lógica infantil desafia o pai.
Se você é pai nessa fase, sabe exatamente do que estou falando. Você descasca a banana e entrega na mão da criança. Ela entra em desespero porque queria a banana fechada. Você tenta consertar, junta a casca de volta, mas o mundo já desabou. Para nós, adultos, parece um motivo ridículo. Para o cérebro deles, que está tentando exercer controle sobre o mundo e testar sua independência, ver que algo mudou sem a aprovação deles é o equivalente a uma grande tragédia. Entender isso muda tudo.
A Postura do Pai: Rocha, não Tempestade
Até eu entender o que estava acontecendo com o meu bebê, muitas vezes acabei criando uma disputa de poder com ela. Eu queria fazê-la entender, no grito ou na marra, que as coisas não seriam do jeito dela. Olhando para trás, meu comportamento estava pior do que o dela, que é uma criança de pouco menos de dois anos. Eu ficava nervoso, falava alto e perdia a paciência facilmente.
Mas quando entendi que não era um confronto pessoal contra mim, e sim um período difícil de transição para ela, voltei a ser o adulto da relação.
A chave para passar por essa fase é a paciência: entender o que está acontecendo com o cérebro da criança e buscar sempre manter a calma. Precisamos nos manter firmes, mas próximos desse “mini-ditador”, ajudando-o a nomear e acolher as emoções. Dar o suporte físico e emocional é o nosso papel. Entrar em disputas de poder só prejudica a construção da confiança e abala a relação que viemos construindo com tanto apego até aqui.
O “Efeito Escolinha” na Rotina: O cansaço que desaba em casa.
A Maria vai para a escolinha desde os 6 meses. A escola, desde cedo, é um ambiente excelente: traz regras, horários para as atividades, momentos certos para as refeições e convivência social. A criança aprende a lidar com tudo isso aos poucos e a conviver com outras pessoas além dos familiares. Após o período de adaptação, os benefícios que esse convívio em grupo traz para o desenvolvimento são nítidos.
No entanto, existe um fenômeno muito comum: na escola, eles costumam respeitar as regras e segurar a onda o dia todo. Mas, quando chegam em casa, o cansaço bate forte e eles desabam. É o que chamamos de “vazamento emocional”. Em casa, onde se sentem totalmente seguros e amados, eles finalmente relaxam e soltam toda a exaustão do dia em forma de birra.
Por isso, no final do dia, precisamos oferecer um ambiente ainda mais acolhedor, com atividades tranquilas que estimulem o bebê sem causar mais exaustão, o que acabaria prejudicando o sono da noite.
Algumas atividades excelentes para esse momento são:
- Ler histórias juntos no sofá ou na cama;
- Pintar ou desenhar com giz de cera grande;
- Ouvir e cantar músicas calmas em um ambiente com luz mais baixa.
Essas ações acalmam os ânimos e podem fazer parte, perfeitamente, da rotina de sono para a noite.
Guia Prático: Como desarmar a bomba da birra em 3 passos.
- Quando o seu mini-ditador se jogar no chão do supermercado ou da sala, em vez de gritar, tente aplicar esta sequência:
- Fique na altura dos olhos dele: Agache-se. Olhar de cima para baixo transmite ameaça. Olhar nos olhos transmite segurança.
- Nomeie a emoção: Diga algo como: “Eu sei que você está bravo porque eu não deixei você pegar isso, eu te entendo”. Isso valida o que ele sente.
Ofereça um abraço ou espaço: Diga: “Estou aqui com você. Quer um abraço?”. Se ele recusar e se debater, fique por perto, em silêncio, garantindo que ele não se machuque até a tempestade passar.
Conclusão: Guiando o Barco com Leme Forte e Água Calma.
Precisamos começar a ensinar os limites para a criança que está entrando na primeira infância. Nessa fase, ela já começa a compreender e a respeitar melhor as regras do mundo.
É uma fase difícil, pois tudo parece virar uma verdadeira guerra e qualquer “não” soa como o fim do mundo. Mas com amor, constância e paciência, os limites começam a ser absorvidos e logo a criança passa a responder melhor às negativas. Essa é a melhor forma de cuidado que podemos oferecer nesse momento. Nosso afeto e tempo de qualidade sempre serão o melhor que podemos fazer pelos nossos filhos.


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